2013/02/27

CPAM in Arqa105









“Inimigo” por Joaquim Moreno, 2012


Sobre-qualificação e rebusco

O inimigo que me tocou combater era um duplo insulto: a sobre-qualificação. Se falas da questão relativamente aos outros, é sobranceiro e arrogante, se falas porque devias saber do assunto, tens que reflectir sobre uma forma de incompetência que deu muito trabalho a conquistar, para a qual trabalhas-te muito, o que deixa o orador na chamada posição de merda: trabalhei muito para ser incompetente por excesso, deu-me muito trabalho perder competência. Recapitulando, achei que me convidaram para estar algures entre o arrogante e o idiota, muito obrigado. Mas depois de escrever esta introdução achei que podia fazer outra coisa com este convite, podia fazer uma coisa que os papa-livros, os que trabalharam muito para se tornarem incompetentes fazem, achei que podia levar uma ideia a dar um passeio e assim contribuir para um re-imaginar do presente, para pensar a transformação para que ela possa acontecer.
Passei a maior parte da década passada à procura de ligações materiais e substantivas entre o discurso e a cidade, ligações entre as páginas publicadas e o espaço público; procurando momentos em que as ideias se movem através de contextos e substancias, são partilhadas por um colectivo e se tornam actos políticos. O meu trabalho mais recente procurou relacionar a Arquitecturas Bis – entendida como uma “revistinha” com uma precisa estratégia cultural: ser a revista lida pelos que escrevem as outras – com a renovação dispersa, catalítica, pontual e essencialmente bidimensional do espaço público de Barcelona no início dos anos 80 do século passado. E se aceitar-mos que a estratégia da revistinha foi instrumental para os consensos políticos e sociais que tornaram o novo espaço público possível, se aceitar-mos a sua eficácia, esta feliz interferência entre o espaço publicado e o espaço público, podemos hipotisar uma inversão da ordem dos eventos, hipotisar que uma nova perspectiva sobre os efeitos poderá transformar as causas e os agentes, forçando um feedback capaz de fazer repensar o papel da narrativa histórica na transformação da cidade. Na continuidade deste trabalho, deste acreditar na capacidade transformadora das ideias, aquilo a que me proponho aqui é derivar com uma ideia.
Á procura do companheiro ideal para este passeio com um ideia fui dar uma volta àqueles velhos recreios das ideias chamados enciclopédias e testei a ideia respigando dicionários e enciclopédias em vários idiomas. Gleaning é a palavra inglesa para a ideia que procurava. Em castelhano é rebuscar ou respigar, em francês é glaner ou grapiller, em italiano é respigolare ou respollare, e em português é respigar, rabiscar ou rebuscar. Grosso modo, respigar é colher depois da colheita, é recolher os restos, é juntar pacientemente o que foi considerado sem valor, fora do padrão ou incorrecto. No contexto actual, em que o sentido cíclico da crise se desvanece e acorda-mos para a consciência que as coisas não voltarão a ser como dantes, que não vamos gozar as benesses das gerações imediatamente anteriores, que nos vamos reformar mais tarde e vamos trabalhar mais tempo, e paradoxalmente menos e com menos segurança e estabilidade, talvez pensar no direito aos restos, pensar naqueles que calcorreiam os campos depois da colheita, possa ser uma maneira de nos questionar-mos e de reorganizar-mos as nossas estratégias de sobrevivência. Ou seja, pensar-nos depois da colheita, na urgência de reinventar e re-significar a terra aparentemente desolada.
Vamos lá então…
A primeira paragem é a enciclopédia francesa, tanto porque presumo não ser o único fascinado com o filme de Agnes Vardá: os respigadores e a respigadora, como porque esta é a enciclopédia original e eu precisava de uma casa de partida… Glaner, sinónimo de grapiller, é a actividade das pessoas que visitam os campos depois da colheita, que percorrem a vinha depois da vindima. A ideia está associada a prácticas agrícolas e a alimentos muito simbólicos: cereal e vinho. A versão inglesa, tomada do Oxford English Dictionary, expande o conceito para colheitas do novo mundo, como o milho. O dicionário simples do meu computador incluí uma citação que caracteriza a razão social do rebusco: as condições de vida dos trabalhadores agrícolas cerca de 1890 tornaram o rebusco essencial. A descrição em inglês aponta ainda para a quantidade, para a recolha de pequenas quantidades, para juntar ou recolher com parcimónia. E desloca ainda a ideia para uma dimensão mais contemporânea que é provavelmente mais próxima dos nossos interesses: o respigar de informação, o juntar recortes de imprensa, o amalgamar, o consolidar de informação a que nos habituámos. Rebuscar pode então ser entendido como outra forma de recolher informação: pedaço a pedaço, juntado fragmentos estranhos, restos, informação que saiu do mapa, que já não pertence ao discurso mais normativo e dominante. O dicionário Larousse electrónico propõe uma ilustração fantástica deste trânsito entre agricultura e informação: a imagem mais conhecida do respigar, a pintura de Millet, é legendada com uma definição que propõe rebuscar como a estratégia operativa da wikipedia: “não será o objectivo de uma enciclopédia feita de contribuições, feita cooperativamente, o respigar infinito de informação cuidadosamente referenciada, verificada e acessível a todos?” Rebuscar pode assim ser também interpretado como a produção colectiva de novas ideias. No entanto, a wikipedia em si propõe o rebusco como uma forma arcaica de estado assistencial, o tal estado que não vamos ter. A voz da wikipedia cita o Velho Testamento para indagar as origens morais do rebusco, como um preceito da colheita que deixava algo no campo para alimentar os pobres, os estrangeiros, as viúvas e os órfãos. As oliveiras deviam ser poupadas a sucessivos varejamentos de modo a deixar alguma coisa para os rebuscadores. Esta é a parte mais complicada da ideia, mais estranha, a que implica uma forma de exílio para beneficiar de algo que é quase definido com um direito; a que implica que os restos são para os marginalizados. Só aqueles que não participam inteiramente da cidadania podem rebuscar aquilo a que a sociedade não consegue atribuir valor.
Paradoxalmente, esta zona cinzenta e turva da cidadania é um dos territórios emergentes de uma nova geração. Pensar nos despojos urbanos como um direito dos prisioneiros dos espaço público, dos que não têm privacidade, ou espaço privado, dos que são sem abrigo, pode ajudar a compreender os mapas contemporâneos da exclusão urbana, as relações tensas entre a casa e o que a rodeia, o habitat a que chama-mos cidade. Por mais paradoxal que possa parecer, é importante reconhecer que para uma geração recente a materialização da arquitectura é de facto um resíduo complexo da participação cívica, alguma dela aprendida com rebuscadores, apanhadores de lixo ou ocupas.
As definições em português e castelhano acrescentam um sentido de repetição, de cuidado especial, e também de productos defeituosos ou danificados: é rebusco. Rebuscar também é procurar, investigar, re-search, com excessivo cuidado. Rebuscado, ou em francês: recherché, pode significar pretensioso ou excessivo, pensamentos que “ao mesmo tempo que não são naturais, revelam a intenção de parecerem originais, de serem mais graciosos, profundos e engenhosos que o comum,” exactamente o que este texto está a tentar fazer, imagino…
Correndo o risco de ser outra vez pretensioso, eu propunha até esta definição como uma via de fuga viável à ordem “natural” e à eficácia, ao fantasma da sobre-qualificação com que me assustaram. E há com certeza coisas piores que demasiada atenção e cuidado.
Finalmente, o sentido português de respigar, de recolher as espigas deixadas no campo depois da ceifa, pode ainda significar, em sentido figurado, a compilação das “melhores” partes de textos literários, isto é, escolher pérolas de informação e estilo e juntá-las num reportório, o que é paradoxalmente uma marca do nosso tempo de informação descontextualizada e simplificada.
O que tentei propor aqui foi um ponto de vista marginal e instável, pequenino e complicado, mas um que espero contribua para lidar com os afloramentos e as urgências do território em que a jovem arquitectura emerge. Depois deste passeio ainda estou curioso acerca deste movimento lento e sincopado que re-significa as coisas humildes que recolhe através do campo depois da colheita. A abundância não se colhe, inventa-se, rebusca-se…

“Inimigo” por Fortifeio, 2013


“Inimigo” por Nuno Travasso, 2012





“Inimigo” por Nuno Abrantes, 2012

Mau senso e contradição
























A CPAM convidou-me para falar sobre o tema da "persistência prática", na sequência de uma história que escrevi há uns anos para a coleção dos Opúsculos da Dafne Editora.
Para quem não conhece essa história, tratava-se de uma longa descrição sobre um pequeníssimo projecto de 24 m2.
Uma ampliação de uma casa num bairro de casas económicas que contou com o clássico cumprimento por parte do empreiteiro no incumprimento de prazos que ele próprio deu. A burrocracia ocupava uma longa parte da história que ainda metia uma queixa de uma vizinha que, talvez por acaso, era arquitecta.
Numa das dezenas de visitas que fiz à obra da Casa do Opúsculo, um vizinho pediu-me ajuda. Precisava de tentar legalizar uma série de pequenas construções que o seu pai tinha feito 30 anos antes.
Um alpendre e uma ampliação térreos nas traseiras e por fim, um acesso à cobertura que dava acesso a um terraço nas traseiras (volume visível na foto esquerda). Eu omiti ao vizinho, provavelmente por esquecimento, que todos os meus processos camarários chumbam. E este não foi uma excepção.
Sobre esse volume foi escrito uma série de apreciações que eu cito metade:

..."o volume da caixa de escadas de acesso à cobertura da construção existente, não contribui para a salvaguarda da qualidade urbanística e arquitectónica do conjunto edificado, em desacordo com os objectivos definidos no artigo 44º do RPDM"…

..."o volume da caixa de escadas, visível no alçado principal, assume-se como elemento dissonante e intrusivo no conjunto edificado;

O acesso à cobertura da ampliação existente, não é do ponto de vista urbanístico aceitável, uma vez que pelo facto de se localizar nos limites do prédio irá devassar visualmente o prédio confinante a sul;

No seguimento de critérios urbanísticos adoptados na apreciação de propostas inseridas nestes bairros, entendemos que a proposta de ampliação deverá assegurar uma clara diferenciação entre a pré-existência e a ampliação.”

Conclusão
Face ao exposto, no que diz respeito aos parâmetros urbanísticos e regulamentares analisados, emite-se Parecer Desfavorável.

Direcção Municipal de Urbanismo

Todos os dias quando vou a pé para o meu escritório passo em frente e este prédio cor de rosa (fotografia direita) e lembro-me sempre destas palavras "dissonante, intrusivo”. É verdade que neste caso, está assegurada "uma clara diferenciação entre a pré-existência e a ampliação" mas a questão que eu coloco é:
Estamos perante a contribuição "para a salvaguarda da qualidade urbanística e arquitectónica do conjunto edificado”?

Um dos principais inimigos da Arquitectura somos nós, os arquitectos.

Mação 10.11.12
Nuno Abrantes é arquitecto no Porto e Santiago.

“Inimigo” por Filipe Borges de Macedo, 2012

This is not a love song. 




























Num mundo desregulado, assente na sobreexploração dos recursos e na transformação do homem numa mera unidade estatística, o Arquitecto transformou-se num criador de momentos.

Momentos esses, que alimentam uma sociedade híper consumista, onde o modelo económico assenta numa desconstrução da realidade.

A monetarização da economia assim o exige, o Arquitecto tem de criar ilusões que apelem a um desejo imediato de consumo, e essas ilusões multiplicam os capitais virtuais. O arquitecto vende-se assim a um modelo económico, assumindo o papel de arquitecto/criador.

Como exemplo máximo deste papel temos o culto do Star System, onde o Arquitecto/ Criador é glorificado como o Paradigma da profissão.

Esta glorificação contamina a formação e a prática da arquitectura. O arquitecto é glorificado na sua capacidade de produzir novos hits e é celebrada a sua capacidade de criar Objects d’Art.

Object d’Art que são caracterizados pelo virtuosismo empregue na sua concepção. O valor da obra e do projecto assenta assim na sua imagem e capacidade de despertar desejo dos consumidores globais.

Deste modo os Arquitectos do Star System criam obras e projectos, sujeitos a um escrutínio instantânea, com um funcionamento semelhante ao Top of the Pops ou ao Box Office.

Este escrutínio alimenta o mercado da sociedade pós-industrial, e forma os arquétipos de uma arquitectura perfeitamente entregue à sociedade do consumo.

As obras assim criadas estão primordialmente vocacionadas para as imagens que geram, pois são essas imagens que acabam por ser o produto primordial do acto do projecto.  

Mesmo quando uma obra ou projecto se assumem com outros desemvolvimentos, sejam elas sobre a responsabilidade social, avanços técnicos ou outras valências revolucionárias, é sempre a imagem descontextualizada que afirma o projecto.

A firmitas e a utilitas desparecem por entre o brilho esplendoroso da Venustas. Pois afinal de contas o que caracteriza as estrelas é o seu brilho.

Na prática quotidiana da arquitectura esta cultura impõe a sua lógica. Quando somos confrontados pela encomenda, a preocupação de criar o Object d’Art sobrepõem-se em muitas ocasiões às condicionantes da encomenda. Que se lixe o cliente, o que importa é criar a Obra. O projecto como Obra de Arte é o objectivo primordial do arquitecto. O resto são empecilhos no glorioso caminho da consumação da Obra de Arte.

A eficiência do projecto, a economia da construção, o orçamento, o estilo de vida do cliente, as condicionantes da regulamentação, a sustentabilidade, a responsabilidade social do arquitecto passam para segundo plano.

Mas no fundo esta é uma visão egocêntrica, deste modo o arquitecto projecta para se satisfazer a si próprio, não projecta para servir, nem mesmo para cumprir as suas obrigações, sejam elas as contractuais com o cliente, ou sejam elas as obrigações da deontologia da profissão.

Neste papel, o papel Arquitecto/criador, assenta a sua virtude numa feroz ética autoral. A sua integridade enquanto autor é assumida como a essência da sua prática. A sua intransigência na defesa da obra, garante-lhe na sua visão distorcida da realidade, a idoneidade e seriedade em que pretensamente deve assentar a ética do Arquitecto.

Mas no fundo, se pensarmos nas consequências e no enquadramento desta prática, todos sabemos que o arquitecto autor, a estrela da independência artística, é no fundo uma meretriz.

E é uma meretriz que jura que não se vende, pois acredita piamente apenas distribui amor. Logo como é um poço de amor, ela é séria e integra, e na sua mente ele imagina-se como a Stª Teresa de Ávila do Bernini em pleno êxtase espiritual.

A defesa da integridade da Obra/ Projecto permite deste modo a criação de um preservativo moral que protege o Arquitecto/ Autor. Contudo, o Arquitecto/ criador rendeu-se, as suas obras/ projectos alimentam o ciclo vicioso do mercado.

Na sua essência, essa intransigência de autor de arte assumida pelo Arquitecto/ Criador, é uma indulgência. E é uma indulgência porque serve de paliativo ao Arquitecto que substitui a ética da arquitectura pela ética autoral.

O Arquitecto assume a sua austeridade artística como prova da sua integridade, esquecendo que na génese da arquitectura, logo na sua fundação ética, a Arquitectura é querer um mundo melhor para um homem mais feliz.

Urge combater a indulgência, e urge combatê-la, não porque a ética autoral seja per si perniciosa, mas porque essa ética serve consolo á venda da alma da Arquitectura a um mercado impiedoso.

Urge combate-la também porque essa pertença idoneidade autoral é um escudo cobarde, ela evita que o arquitecto faça opções verdadeiramente difíceis.  

Relembro o doutoramento Honoris Causa do Nadir Afonso na FBAUP, quando ele afirma que foi para arquitectura por cobardia, pois ao entrar nas belas artes um contínuo lhe disse que com o liceu concluído, era um disparate ir para pintura, e o jovem Nadir Afonso acreditou, e durante anos continuou a creditar, até que cresceu e se fez homem, e aí deixou de ser cobarde e passou a ser artistas.

Urge igualmente combater este arquétipo do arquitecto, pois esta pertença idoneidade do arquitecto autor serve de desculpa para erros e maus serviços á sociedade e aos cidadãos, logo, esta atitude retira a premência social aos actos da profissão, dificultando assim o caminho dos arquitectos que querem utilizar a arquitectura como meio de mudança de paradigmas, pondo-a ao serviço das populações.

E acima de tudo, urge combatê-la porque o Arquitecto deve ser “…homem entre os homens - organizador do espaço - criador de felicidade.” (Távora, F., 1962).

Logo, o Arquitecto deve servir o homem, sendo esse o seu principal desígnio ético, nunca podendo este desígnio ser substituído. Pode, e deve, este princípio seminal arquitectura ser complementado por outros princípios éticos, onde a intransigência autoral tem a sua relevância.

Urge combater o Arquitecto autor, pois a predominância da forma artística sobre o conteúdo ético da Arquitectura limita-nos a capacidade de imaginar um mundo melhor para um homem mais feliz, e isso faz de nós Cidadãos e Arquitectos menores, pois desse modo somos agentes da continuidade e não criamos as transformações que importam.

2012/12/08

“Inimigo” por Luís Santiago Baptista, 2012

INIMIGO – O CRÍTICO 
…OU UMA PERSPECTIVA (AUTO)CRÍTICA DO CRÍTICO-ARQUITECTO 




















Num concurso recente para a equipa editorial de uma publicação, lançámos a questão: “Para que servem os críticos?”. Pensámos: será que servem para pensar a condição da disciplina no actual momento de crise? Será que podem ser os mediadores privilegiados entre a teoria e a prática, entre o pensamento e a acção? Tamanha ingenuidade. Na verdade, vistas bem as coisas, os críticos não servem para grande coisa. Como arquitectos, os críticos são inevitavelmente os que não sabem do ofício. Como diz o saber popular: quem não sabe fazer, ensina… ou escreve… ou comissaria. O que vale a arquitectónica de um discurso perante a evidência material de uma obra de arquitectura. 
Primeiro, concentremo-nos nos arquitectos propriamente ditos. A cultura de projecto em Portugal exerce-se, por natureza, de modo intuitivo. Sem grandes rasgos teóricos e com magras memórias descritivas. Descrições lacónicas e auto-evidentes de decisões projectuais. O que diga-se por si só não é a raiz do problema… mas tem consequências. Em segundo lugar, alarguemos a análise à nossa cultura arquitectónica. Não parece existir reflexão teórica para além da actividade projectual. Reflexão sim, mas com finalidade prática. Com o objectivo de construir materialmente obra. E este facto, não sendo negativo em si, também tem consequências. No limite, sofremos de uma instrumentalização da reflexão teórica no projecto. Um meio para um fim. O que condena o que está fora para um deserto disciplinar. Uma cultura anti-especulativa e anti-imaginativa… numa circunscrição forçada ao pretensamente real. Pensemos, mas dentro do quadrado da obra construída. Em terceiro lugar, aproximemo-nos finalmente do crítico. Habitando um mundo hostil, o crítico move-se entre as gotas da chuva. Entre compromissos e amizades, esbarra com a ausência de uma cultura crítica. Verdadeiramente crítica. Positivamente crítica. Construtivamente crítica. Na verdade, um lugar imaginado e imaginário onde a crítica não crie inimigos… mas conhecimento e partilha. Partilha de conflitos e tensões necessariamente. Em suma, o crítico não se safa com a crítica. Social e financeiramente. 
No entanto, por cá, os críticos até fazem arquitectura. E ainda por cima publicável e, em casos excepcionais, premiável. O que pode indiciar um inconfessado mal-estar com a sua condição profissional menor. Ao crítico resta-lhe ser propriamente arquitecto… em regime pós-laboral e temporário. O que, digamos, o envia para uma liga de honra. Mas o suficiente para experimentar algo da sua aura. Essa aura artística e mediática que assombra a profissão. 
Porém, em abono da verdade, os críticos portugueses não deixam de servir para alguma coisa. Preenchem aquelas páginas de texto iniciais ou finais das belas monografias dos arquitectos da primeira liga. Ou escrevem uns ensaios, num tom que pode ir do intuitivo ao lacónico, sobre a situação identitária da arquitectura portuguesa. Aludem a recônditas referências disciplinares e citam inteligentes máximas filosóficas ou literárias. Tudo com vista a projectar os eleitos na champions league
De resto, os críticos têm ainda outras utilidades. Quando não se isolam nos refúgios da academia, também descem à terra. Promovem uns debates e animam umas tertúlias sobre temas mais ou menos quentes da actualidade. Uma espécie de entretenimento disciplinar. Provocatório e divertido quanto baste… como um reality show. Finalmente, por vezes, os nossos críticos apresentam-se em júris, onde podem gozar momentaneamente de um poder que sempre lhes escapa. 
Em última análise, permanece a dúvida: para que servem efectivamente os críticos?

“Inimigo” por DINAMO 10, 2012








A “Instant City” dos Archigram, é a perfeita analogia para o efeito do cowork numa cidade ou comunidade (dependendo da escala). 
Na nossa “Cowork City”, um conjunto de profissionais liberais ou pequenas empresas co-habita um espaço intensivamente, onde ocorrem uma série de eventos, que pretendem estimular a sua produção. 
Dentro desta bolha o “inimigo” não existe! A ideia é partilhar, crescer em conjunto, apoiar, sempre baseados na máxima “O que é meu é nosso!” 

De que forma os arquitectos, habituados desde os anos de formação, a conviver espacialmente com os seus colegas e a partilhar muitas horas de trabalho e de entrega total a poucas horas de sono, se adaptam ou aderem a estes ambientes colaborativos? 
O DINAMO10, espaço de cowork de Viana do Castelo, com 10 postos de trabalho, orgulha-se da partilha vivida entre os arquitectos residentes e que por lá já passaram. 
Mas, quando extrapolamos para a cidade, percebemos que este conceito de partilha não é bem aceite pelos nossos pares, ancorados ao típico “gabinete de arquitecto”, sentados nas suas cadeiras de pele, e sustentando uma pesada infra-estrutura que consome todos os seus recursos (escassos por estes dias) 
Por isso, tal como outra apresentação do CPAM, o DINAMO10, considera que o arquitecto é inimigo de si próprio.

“Inimigo” por Maria Manuel Oliveira, 2012

O tempo linear, o tempo dos nossos tempos


§1. A arquitectura não tem inimigos específicos. 
Se a arquitectura é a presença do mundo sobre a natureza, os seus inimigos são os da vida comum, sendo comuns aos tempos em que lhe são contemporâneos. 
É no entanto a arquitectura, naturalmente, mais sensível a uns do que a outros. O tempo linear ou longitudinal em que vivemos imersos e que regula - no nosso mundo e na(s) nossa(s) História(s) – o compasso da trajectória individual e da espécie, revela-se o suporte ideal para a aceleração imensa e a abstracção generalizada que, progressivamente confundindo matéria e representação, tem vindo a permitir que o simulacro substitua o real. 

§2. O tempo linear acelera o tempo,
agora - aliado à dissociação entre tempo e espaço - de uma forma vertiginosa, como se a velocidade fosse um fim em si mesma [‘... o fim é também a finalidade de qualquer coisa, o que lhe atribui um sentido. Mas quando estamos nestes processos que se desenrolam em cadeia, que se tornam exponenciais, para além de uma certa massa crítica eles não têm mais nem finalidade nem sentido…’ 
(J. Baudrillard, mots de passe, 2000)].
Em tempos esquizofrénicos, onde se contrapõe o excesso do demais para fazer – fazendo tudo de uma forma violentamente apressada e (quase) sempre superficial - ao tédio e ao drama de nada ter para fazer, 

§3. o acto de projectar transformou-se numa corrida de obstáculos. 
Condicionado por um tempo curto, demasiado curto - cada vez mais curto e minado por imposições sobrepostas e muitas vezes paradoxais -, projectar encontra-se sujeito a uma tensão que deixa de ser aquela que sabemos imprescindível ao desenho mas que antes nos empurra para um estado de fibrilação mental / que estorva, dificulta, ou impede, conforme o nível que atinge, muito particularmente o prazer do projecto, a sua construção, a essencial exploração de caminhos que possibilitam nexos inesperados (serendipity, Horace Walpole, 1754: o encontrar de uma coisa quando se procura outra, sendo que a coisa encontrada é mais interessante que aquela que se procurava). 

§4. Em tempos de forçada apneia,
(os nossos), 
poder-se-ia então, num radical exercício, talvez iludir a lógica implacável da flecha do tempo que alimenta a selvagem e abstracta consonância capitalista e nos obriga a uma corrida incessante, e tentar habitar o tempo (re)encontrando - no campo de batalha - os tempos necessários para inquirir e, enfim!, saborear o mundo da indeterminação que se nos promete repleto e aparentemente disponível. 

[‘o que se desenha no horizonte? – Um século das horas extraordinárias, da dúvida, da fuga massiva. Mas não vale a pena lamentar-se e é indecoroso baixar a cabeça. O dever de ser feliz é mais válido do que nunca em tempos como os nossos. O verdadeiro realismo da espécie consiste em não esperar menos da inteligência do que se exige dela.’  (P. Sloterdijk, O estranhamento do mundo, 1993)].

2012/11/27

“Inimigo” por João Belo Rodeia, 2012

SER PRESIDENTE DA ORDEM DOS ARQUITECTOS


01. 
Passaram já 15 anos desde que, em 1997, participei no Encontro de Serpa, num tempo de forte optimismo entre os então jovens arquitectos portugueses, mas nem por isso menos exigente quanto à necessidade de reflexão crítica sobre a arquitectura e sobre a nossa profissão. Estive sentado do lado da assistência, longe de imaginar que estaria hoje a escrever sobre a circunstância de ser Presidente da Ordem dos Arquitectos. 
Aqueles que me conhecem sabem que raramente falo de mim próprio. Abro esta pequena excepção para dizer-vos, sobretudo àqueles que não me conhecem, que nada faria antever que alguma vez viria a ter as presentes funções. Fui para Lisboa em 1979 sem qualquer curriculum familiar ligado à arquitectura ou à profissão de arquitecto, aparte da firme vontade e desejo em sê-lo. Trabalhei intermitentemente enquanto estudava, num tempo em que a escola, a profissão e a Associação dos Arquitectos Portugueses eram fortemente endogâmicas. Recordo com orgulho o dia em que me inscrevi na AAP. Porém, durante muito tempo com ela mantive uma malaise permanente, em grande parte injusta e em grande parte provocada pelo forte antagonismo que existia com a Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Apesar disso, fui participando nas suas actividades com progressiva aproximação, procurando contribuir, passo a passo, para melhorar o estado das coisas dentro das minhas escassas possibilidades. Este meu percurso pode ser ou vir a ser o de qualquer um de vós. Se alguma coisa mudou - e muito mudou desde então - foi a possibilidade efectiva de qualquer membro da OA poder vir a ser seu Presidente, seja qual for a sua origem, a sua condição ou as suas convicções. Fiz o meu caminho a andar, com esforço, com dedicação, com algum mérito e com alguma sorte. Contei com a ajuda de muita gente a quem estarei para sempre grato. Em tudo quanto tenho feito - em alguma prática de projecto, na docência universitária, nos escritos, no serviço público - errei muitas vezes, caí algumas tantas e levantei-me do chão. Neste meu caminho - que vale o que vale, porventura não muito - foi crucial o facto de porvir de uma família comum de província que ocupava todo o espectro político disponível, mas nem por isso indisponível entre si ou para os outros. Bem pelo contrário. Aprendi a ouvir e a saber ouvir, a ser mais inclusivo que exclusivo, a tratar todos como iguais, a fazer da tolerância um valor quotidiano, a pensar a liberdade como valor primeiro. Aprendi como quase tudo é transitório na vida, procurando o mais importante entre a espuma dos dias. Inimigo tornou-se, para mim, uma palavra proscrita. Não creio, como muitos crêem, que a qualidade de uma pessoa se meça pela qualidade dos seus inimigos, mas antes pela civilidade em não tê-los. 
E, talvez por tudo isto, comecei a construir pontes entre pessoas, entre ideias, entre acções, entre vontades, entre contrários. À distância, dou por mim a acreditar que o meu caminho não teria sido de todo possível sem esta condição. Condição que - creio - ajuda muito no perfil de qualquer Presidente da Ordem dos Arquitectos. 

02. 
Aliás, ao invés de outras Ordens, ser Presidente da OA implica-o sempre no Nós como premissa, ou seja, implica a partilha de actividades e iniciativas sufragadas, de deveres e responsabilidades instituídas e públicas, de sucessos e insucessos quotidianos, não apenas com a equipa que integra, mas também com um vasto conjunto de arquitectas e arquitectos que, nos mais diversos âmbitos, colaboram na vida interna e quotidiana da OA. 
Porém, esta natureza do colectivo alarga-se a todos os seus membros. Ou seja, a premissa do Nós com o Vós é, na verdade, um duplo Nós. Tal implica ter a plena consciência de que a OA são todos os arquitectos que exercem a sua profissão em Portugal, com a sua enorme diversidade, com os seus diferentes fazeres e com distintos olhares sobre a profissão e a arquitectura. 
E esta consciência tem consequências, pois desenha, por um lado, uma forma para a missão colectiva e temporária que cada Presidente da OA representa, sempre na perspectiva de servir e de dar voz a todos, e, por outro, implica o cuidado permanente em procurar-lhes denominadores comuns, ou melhor, em ser inclusivo, em procurar não deixar ninguém de fora. 
Daqui decorre a óbvia dificuldade - que creio inultrapassável - que é da plena coincidência do duplo Nós. E, diga-se de passagem, ainda bem. Pois é essa ausência de plena coincidência que permite a democracia na OA e, em particular, o exercício fundamental da livre escolha dos seus órgãos sociais em cada mandato. É certo que a democracia não se esgota nesta livre escolha ou tão só na própria Ordem, sendo igualmente importante uma sociedade civil dos arquitectos activa e interveniente de que é sinal o próprio CPAM. 
Ainda assim, para todos quantos desejam melhorar as condições do exercício profissional dos arquitectos, para todos quantos desejam maior reconhecimento público da arquitectura, importa reafirmar que a sua disponibilidade deve ser concretizada na própria Ordem - em participação, em reflexão, em acção e em trabalho - pois é dentro e através dela, como a história associativa bem nos ensina, que tais melhorias e mudanças são efectivamente possíveis ou, pelo menos, mais possíveis. 
Foi por isso - e tão só por isso - que decidimos tentar a nossa sorte, que decidimos tentar servir os arquitectos através da OA. Chegará o momento para outros poderem fazê-lo e, tanto quanto possível, cada vez melhor, mesmo nas circunstâncias objectivamente difíceis do presente e do devir. Mas também desafiantes, entusiasmantes e estimuladoras como expectativas e oportunidades. 

03. 
Ser Presidente da OA, em partilha constante com a equipa que integro, implica uma outra premissa fundamental que é a do reconhecimento da natural inquietude ou intranquilidade de muitos arquitectos, que decorre da intensa entrega à arquitectura e do seu sentido de entrega aos outros. Mario Vargas Llosa, um dos meus escritores favoritos, fala da razão disto mesmo ao afirmar que o arquitecto ficciona realidades, ou seja, substitui ilusoriamente, em cada projecto, o mundo concreto e objectivo da vida vivida por um mundo ficcionado de uma vida melhor. 
Neste sentido, esta ficção é uma mentira que encobre uma verdade profunda, ou seja, ela é a vida que não existe e que, por isso, o arquitecto decidiu inventá-la para si mesmo e para os demais, ou a vida que ainda não foi mas que poderá vir a ser um dia. Este jogo não é inócuo. Produto da insatisfação íntima e legítima contra a vida tal como é, é também fonte de mal-estar e de insatisfação, pois quem vive uma grande ficção regressa à vida real com uma sensibilidade muito mais alerta diante das suas limitações e imperfeições, tanto mais quanto esta é quase sempre bem mais medíocre do que a inventada e desejada. Esta inquietude ou intranquilidade do arquitecto diante do mundo real que a arquitectura alimenta, sempre na convicção de poder construir um mundo melhor para si mesmo e para aqueles que serve, empenha-o numa luta generosa, quase quixotesca, mas sempre desigual, pois raramente os dois mundos - o real e o ficcionado - coexistem num só. Tal lhe não retira, porém, qualquer legitimidade. Bem pelo contrário, a possibilidade de mudança e de melhoria na profissão, na arquitectura e de ambas na tentativa de construção de um mundo melhor decorre da tomada de consciência disto mesmo, ou seja, do equilíbrio entre a necessidade de ficcionar, antecipando realidades, e a possibilidade em concretizá-las. 
A própria Ordem, pela sua natureza normativa, não escapa a esta litigância e compreende-se que muitos arquitectos tanto admitam a sua necessidade como, em simultâneo, mantenham com ela alguma distância. 
Certo é que em tempos de grandes dificuldades como aqueles em que vivemos, acentua-se tal distância entre estes dois mundos e, com ela, a inquietude, a intranquilidade ou mesmo a angústia de muitos que, diga-se de passagem, nós próprios partilhamos dentro da Ordem. Creio ser este o pano de fundo do CPAM, cujo sucesso decorrerá da aproximação destas duas realidades. É igualmente com este pano de fundo que na OA, todos os dias, procuramos antecipar realidades ficcionadas e, a pulso, concretizar realidades possíveis. 

04. 
Nesta justa medida, considerando o quadro de missão da OA e aquilo que de nós apenas depende, não abdicamos do compromisso estabelecido com os arquitectos, ainda que a Ordem, tal como as demais Ordens e Associações Públicas Profissionais, enfrente hoje forte adversidade na interlocução com o actual Governo que, aliás, não respondeu até ao momento a qualquer das nossas propostas tendentes a melhorar as condições para o exercício profissional ou a constituir um novo quadro de oportunidades para a encomenda de projecto no âmbito dos bens imóveis do próprio Estado. Nem sequer a Política Pública de Arquitectura, vital para o reconhecimento pleno da Arquitectura e para o Direito à Arquitectura, mereceu ainda justo acolhimento pela tutela, mesmo quando prevista em normativa nacional e em directrizes comunitárias. 
Na verdade, em face da mais difícil conjuntura profissional de que há memória recente, o Governo mantém-se claramente sem rumo e sem visão de futuro para a arquitectura e para os arquitectos, senão mesmo para o País. 
Por isso, nem nos resignamos, nem desistiremos de bater-nos pelos objectivos fundamentais que estabelecemos para o presente mandato. Mas não tenhamos ilusões. Por mais que tentemos, por mais que façamos, nem a OA conseguirá ajudar a criar emprego, encomenda e oportunidades a curto e médio prazo, nem esgotará as possibilidades múltiplas de intervenção dos arquitectos. Na verdade, num País com tanto ainda por fazer e em que o Direito à Arquitectura está longe de ser um dado adquirido, uma das grandes mais-valias da nossa profissão continuará a residir na nossa imaginação, ou seja, na nossa capacidade de ficcionar o futuro. 
Importa, pois, que a sociedade civil dos arquitectos, nos seus diversos domínios e âmbitos de actuação, reflicta sobre a profissão, reequacionando-a, imaginando novas formas de participação na sociedade e identificando novas oportunidades, sendo certo que grande parte destas, designadamente no domínio do projecto, encontrar-se-ão na reutilização arquitectónica, na regeneração urbana, na sustentabilidade do edificado, em melhor habitação para todos e na possível internacionalização dos nossos serviços. Muito de tudo isto depende de nós próprios e da nossa capacidade organizativa, prospectiva e empreendedora. 
Pela nossa parte, estamos convictos de que conseguiremos legar aos que vierem depois de nós uma Ordem melhor do aquela que encontrámos, na certeza de que haverá sempre muito para fazer e para melhorar. Perguntar-me-ão se estamos satisfeitos com o trabalho realizado na OA. A resposta é simples: não estamos, nem nunca estaremos, enquanto subsistirem precariedade e condições incompatíveis com o exercício da nossa profissão, ou a falta de pleno reconhecimento da Arquitectura como um direito de todos e como um recurso fundamental para melhorar a vida dos nossos concidadãos. Por isso, ainda que em tempos muito adversos, mantemos a mesma ambição em ficcionar o futuro e a mesma perseverança em concretizar alguma dessa realidade imaginada, desde logo continuando o trabalho de reestruturação orgânica e financeira da própria Ordem, em parte já concluído. Aprendemos, todos os dias, com os sucessos e os insucessos. Aprendemos, todos os dias, com os contributos generosos de muitas arquitectas e de muitos arquitectos. Aprendemos, todos os dias, com as razões e os protestos de alguns outros. 
Uma coisa é certa. Ser Presidente da OA, ser membro de qualquer um dos seus órgãos sociais, implica hoje alguma coragem, muita disponibilidade e é claramente uma ocupação de alto risco. Mas, nestes tempos em que tantos depreciam o serviço público, procuramos honrá-lo e dignificá-lo. Enquanto arquitectos, não há decerto melhor lugar para fazê-lo que na OA. E não há decerto melhor forma de fazê-lo do que procurar sempre fazer - em cada proposta, em cada acção, em cada iniciativa - o que melhor sabemos e podemos. Pois, quem faz o melhor que sabe e pode, faz sempre o melhor que deve fazer.

“Inimigo” por Henrique Pinho, 2012

“In order to predicte future, you have to invente it” 
Alan Kay 








Gráfico adaptado do livro, Andersen, Chris, 2007, A Cauda Longa, Lisboa: Actual editora

A missão dos arquitetos, hoje certamente está longe do que vamos ser amanhã, mas o que vamos ser amanhã se não visualizarmos um objectivo a alcançar a não ser apenas a nossa sobrevivência. 
A arquitetura existe porque o mercado, entenda-se pessoas, necessita e vai necessitar de profissionais na criação de espaços privados e públicos (não projetos do estado ou lançados pelo estado). 
 Em virtude de uma consolidação da economia mundial, vamos assistir a uma desaceleração global de todos os sectores de atividade, assumindo este cenário como um facto e não fugindo às evidências, vamos olhar para todo processo desde que alguém sonha ser Arquiteto até o ser. 

ENSINO 
Então o ensino terá de ser revolucionado, os futuros arquitetos não deverão sair formatados e em série, mas sim ser entidades únicas, fruto das suas opções e vontades. Deve ser permitido a todos a livre escolha, só assim se manterão atualizados e preparados para o mercado de trabalho, que muda todos os anos, não mais compatível com opções de 5 anos. 
Os docentes terão um papel de catalisadores neste processo, eles próprios com acesso a informação que lhes permite ver mais à frente, possibilitando propor novas abordagens, novos conceitos e partilhar isso com os estudantes. Esta é a razão da sua existência, partilhar e preparar o futuro. 
Se somos uma classe preparada para trabalhar em qualquer região do mundo e temos inequivocamente uma facilidade de adaptação a novas realidades, qual a razão das nossas escolas não nos prepararem efetivamente para a globalização. 

PRIMEIRO CONTATO PROFISSIONAL 
O estágio como forma de comprovar as habilitações não faz sentido, o percurso académico deverá ser suficiente. Acredito que os contatos no âmbito curricular com o mercado de trabalho como forma de adquirir experiência e lucidez são um factor de diferenciação e se forem escolhidos por opção do futuro arquiteto, tanto melhor.   

PROPOSTA DE HONORÁRIOS 
Mas agora perguntamos, quanto deve ganhar um arquiteto? Deve ganhar um proporcional ao valor acrescentado em determinado processo onde intervém. Se não adiciona valor, porque deve ganhar um proporcional? Não deve. Relevância, valor acrescentado, no final lucro, é aquilo que move o mercado não tenhamos ilusões. 
Por isso é tão importante o Arquiteto ser uma empresa, para ter uma visão global do mercado onde se insere, possuir competências de Marketing para ser marca, não ele, a empresa, Gestão para gerir, Direito para interpretar, propor e contestar a legislação, Gestão de Projeto para que o networking funcione e finalmente Arquiteto para fazer projeto e obra. Está claro que os ditos “vãos de escada” não devem existir, mas com as novas tecnologias e facilidades de comunicação a arquitetura pode funcionar como uma entidade em colaboração com outras, para qualquer parte do mundo. 
Não sou eu, somos nós. 
A Arquitetura tal como outras atividades tornou-se uma commodity, se não inovarmos ou adequarmos a oferta à procura ou à procura do que ainda não existe...sim, ainda existem necessidades por descobrir, não será aí que está o presente e o futuro papel do Arquiteto? 

LEGISLAÇÃO 
Tema fundamental para compreender o estado da profissão, total confusão. A legislação deveria ser integralmente refeita e simplificada, deveria ter em conta os interesses nacionais e não ser uma cópia de outras realidades. Deveria ser um meio de desenvolver a nossa industria e não a de um outro país, deveria ter em conta os nossos baixos recursos energéticos, não potenciando o consumo dos mesmos. 
O técnico deveria ser responsável pelas suas opções e não pelas suas e pelas dos outros. Os arquitetos devem participar na concepção e redação de toda a legislação inerente à profissão. O arquiteto político. 

ORDEM PROFISSIONAL 
Tal como a profissão, um modelo desatualizado, não tendo a pretensão de avaliar, constato a não existência de uma entidade que existe porque nós existimos e não o contrário. Será necessário encontrar um visionário que queira começar tudo de novo, com uma visão/projeto a dez anos no mínimo, não querer fazer tudo ao mesmo tempo, não ser populista ou demagogo, mas fazer o que é fundamental para que a profissão tenha futuro. Isso faz-se com um novo modelo de participação dos arquitetos, com a colaboração de quem está lá fora, fora do quadrado, sem ligações ou interesses, quem efetivamente está no território global. Somos poucos mas mesmo assim dividimos para reinar, cabe a todos nós acabar com este sentimento de incapacidade de fazer, sejamos fazedores. Por outro lado temos de ter a capacidade de aceitar que os novos desafios não são para todos, alguns vão ficar pelo caminho. 

REALIDADE 
Termino com uma provocação, quantos conhecem a teoria da cauda longa? Para mim uma verdadeira lição de um visionário, Chris Anderson, editor da revista Wired. 
Ele afirma e explica "porque que é que o futuro dos negócios é vender menos de mais produtos" (2006, Andersen).

“Inimigo” por Fernando Sanchez Salvador, 2012

Intervenções 











































Palavras-Chave 

Aristóteles, Maquiavel, Kafka, Guy Debord, filmes, arquitectos star.system, descontextualização, egocentrismo, a barriga do arquitecto, o arquitecto inimigo, os planos, estradas, habitação, arquitectura não construída não é arquitectura, culpabilização, quatro momentos da história da arquitectura portuguesa, nós, fazer bem, arquitectura suíça, oliveira da figueira, service providing, conhecimento estratégico, estruturas cooperativas, entidades competentes, consumidores, arquitectos devem reposicionar-se, o arquitecto como promotor imobiliário, ocupação de edifícios devolutos, brigadas SAAL, concursos, contratação pública, paixão pelos concursos, a arquitectura é um hobby demasiado caro, arquitectar ou morrer- venceremos, business models, como calcular honorários, vender business to business, arquitectura como arte, RSECE, consolidação da legislação, dumping, Ruskin, manutenção, respigar, rebuscar, despojos urbanos, ocupas, marginal, instável, luxo para todos, mestrado integrado, relevância para a disciplina da arquitectura, farto de não ter visão, os críticos da arquitectura, construo a arquitectura com palavras, petrocuanza, post-colonialismo em arquitectura, iniciativa privada, os mortos na arquitectura, subverter o sistema por dentro, amar a arquitectura, solidariedade, Jean-Luc Godard, exigência e responsabilidade, arquitectura e ambiente construído, o sindicato, Encontros de Aveiro, Encontros de Serpa, o ser feliz, LEVAR MAÇÃO AO MUNDO.

2012/11/19

“Inimigo” por Paulo Martins Barata, 2012

Eu, Arquitecto Suíço, me Confesso 



Dei recentemente uma conferência no Politécnico de Zurique. O leitor provavelmente desconhece o que esta escola representa para o mundo dos arquitectos, mas se lhe disser que é o monte Olimpo, não andarei longe da mística que lhe está associada. Os talentosos jovens de quem partiu o convite, Christ & Gantenbein, qual Perseus, são os eleitos de Herzog & de Meuron para geracionalmente perpetuarem esse grande milagre da arquitectura suíça.

No final do evento, trocamos impressões sobre os nossos ateliês e sobre as condições de trabalho. Visivelmente perturbado, Christoph Gantenbein explicou-me que o grande problema de trabalhar fora da Suíça eram os honorários. Referia-se à Noruega, onde tinha ficado em 2o lugar no concurso para o Museu Edvard Munch, e a outros cenários ainda mais difíceis de trabalhar, como a Alemanha e a Áustria (...!). Obviamente abstive-me de contrapor essa dura realidade à minha, mas lembrei-me do esgar de outro suíço notável, Peter Märkli, quando legitimamente, e perante os honorários para participar no projecto do L’And Vineyards, em Montemor, me perguntou: “Yes, Paulo. But can you eat? ...Can you buy bread?” A preocupação de Märkli, humanista e generoso, era genuína e era dirigida a mim. Ele acabou por participar, mas em nome do multiculturalismo, como o faria para um projecto de realojamento no Sudão ou de reordenamento de favelas em São Paulo. Apercebi-me então que habitávamos universos diferentes. A história do Olimpo era mesmo verdade, e que eles, deuses e semi-deuses, cercados por nós, comuns mortais, estavam também acantonados numa realidade que só existe nos Alpes, nas histórias da Heidi.

Paradoxalmente, qual é então, caro leitor, de todas as culturas, de todos os possíveis universos inspiracionais, aquela que os arquitectos portugueses elegeram como referência absoluta? A Suíça! Nós copiamos os suíços-alemães em todos as suas publicações, conceitos, citações, imaginários, maquetas e formas de representação. Os nossos arquitectos falam em “matéria”, “massa”, “essência”, “densidade” e “espessura” com a gravidade evangélica do Peter Zumthor, e organizam eventos chamados “swissport”, em plena Invicta, como se, num êxtase ecuménico, a tal Heidi abraçasse a nossa irmã Lúcia, e tudo ficasse bem. Porém, quero vos dizer que todo este amor não é verdadeiramente retribuído. Para lá de uma ou outra professorship temporariamente atribuída em nome da diversidade e dos edifícios de Siza e Souto na Novartis para preencher a obrigatória quota do sul, os suíços não têm um interesse genuíno pela nossa arquitectura. Acham-na excessivamente intuitiva e escultórica, — mesmo aquela que é pretensamente da “linha dura.” Não compreendem o canónico “processo do esquiço” da Escola do Porto e abominam as lápides sensuais do Siza do tipo: “o desenho é um desejo de inteligência.”

Apesar deste amor não correspondido, no país da UBS e do Credit Suisse, a hipótese de ganhar um concurso persegue-nos como uma espécie Euromilhões arquitectónico; afinal, não é lá que está a maior parte do nosso dinheiro offshore? Dai que o overdraft noutro banco, o banco de horas gasto pelos nossos juniores e estagiários em concursos helvéticos, comece, com alguma justiça, a perturbar a bondade sindical dos nossos “arquitectos malditos”, que são, em blog, o factotum comunista dos Arménios Carlos.
Independentemente do seu sinistro universo bancário e de todos esses dentes de ouro sem paradeiro, a Suíça é uma cultura de rigor e excelência. “They out-german the Germans,” preveniu-me em 1994, o artista alemão Ingo Gunther, em vésperas da minha partida para o Politécnico de Zurique. Mas não são nem o nosso passado, nem a nossa realidade, nem o nosso futuro. Num próximo artigo quero apresentar-vos um arquitecto de sucesso que está muito mais próximo de nós, da nossa cultura e dos nosso potencial. Ele é um homem novo. Chama-se Oliveira da Figueira e foi descoberto por um belga chamado Hergé, algures num barco ao largo da Mauritânia.


O Coma da “Arquitectura Portuguesa” 

Numa recente reportagem ao semanário “Sol”, o Presidente da Trienal de Arquitectura vaticina a extinção da “Arquitectura Portuguesa” e explica que, dada a sua enorme visibilidade na última Bienal de Veneza, o estado português perdeu mais uma oportunidade de capitalizar na exposição, chamar opinion makers e até “eventuais investidores” para a resgatar do coma profundo em que se encontra. Simultaneamente, Nuno Sampaio, Presidente de uma organização denominada “Estratégia Urbana”, refere ao “Público” que o pavilhão temporário a ser construído no Parque de Ibirapuera em São Paulo, projectado pela dupla de portuguesa de Pritzkers e certamente inaugurado pelo inefável barão Horta e Costa, será “um laboratório de inovação” que se inscreve em mais uma proposta de internacionalização da “Arquitectura Portuguesa” no Brasil. Sampaio sugere ainda que, esgotada a capacidade do estado pagar mais escolas, centros culturais e piscinas municipais, o Portugal arquitectónico está finalmente em condições de mudar de ciclo e apostar em novos mercados.

O desnorte e equívoco subjacente a ambas as declarações, faz-me lembrar o famoso e ébrio dislate de Jackson Pollock numa soireé de Peggy Guggenheim: “...so if I’m so fucking great why doesn’t anybody buy my paintings?” Antes do estertor final, estas catarses culturais fazem parte da dificuldade em reconhecer que a “Arquitectura Portuguesa” nos moldes em que existe não é exportável, apesar dos imensos prémios e laudatória que recolhe (ainda que muita dela em circuito fechado). A “Arquitectura Portuguesa” aquartelou-se numa clique da qual apenas por pudor me abstenho de enumerar a insofismável lista de autores obrigatórios, e que é incapaz de trabalhar sob os códigos daquele que é o único modelo internacional de projecto consistentemente exportável: “service providing.” Os ingleses, os escandinavos, os americanos e até os alemães, com ou sem “sangue azul”, à décadas que perceberam isto, e todas as implicações que lhe estão associadas: não são autores; são prestadores de serviços. Pelas diferentes latitudes que percorro, vejo ateliês de arquitectura - que podiam ser portugueses - a trabalhar e a angariar projectos. Nós continuamos olimpicamente à espera do estado para apoios à internacionalização, e vemos o Siza e o Souto de Moura a queixarem-se que já não têm trabalho com as câmaras municipais. Ao fim de décadas a receberem adjudicações directas do estado português acordam para a dura realidade de que o trabalho não lhes vem bater à porta. E daí? O “sir” David Chipperfield, admirável comissário da dita Bienal, desde os anos 80 que anda de mochila às costas à procura de trabalho da Alemanha ao Japão e EUA.

Na verdade, dita Arquitectura Portuguesa, “...chegou já cadáver a São Paulo,” como diria um GNR de piquete, e nada pode ser feito para a reanimar nos moldes em que existe. A arquitectura só residualmente é “exportável” como um produto cultural. No modelo dominante anglo-saxónico, aquilo que se exporta é conhecimento estratégico, comercial e técnico. Por outro lado, os chamados “mercados naturais portugueses,” serão óptimos para exportar calçado, azeite e enchidos, mas tenho mais dúvidas em relação à prestação de serviços. Com raras excepções, verifica-se que, se uma empresa de projecto for corporativamente fluente em inglês, a língua portuguesa pode até tornar-se uma desvantagem pela informalidade que promove. E no capítulo da informalidade, o Brasil bate todos os recordes, com projectos básicos, honorários ridículos e sempre pagos com enorme criatividade contabilística.

“O mundo mudou”, disse um dia Sócrates. Nós, palermas, achámos que o homem estava a brincar, mas com a hecatombe imobiliário ibérico – da qual só sairemos na próxima década –, o problema da exportação de serviços tornou-se uma questão de sobrevivência. Aos arquitectos portugueses exige-se uma nova abordagem: desempoeirada, sistemática, agressiva e entusiasta. Falta modéstia, ousadia e perspicácia, mas existe talento, criatividade e sedução.

Paulo Martins Barata é Arquitecto em Doha e Lisboa.


ABC da Internacionalização

“Arquitectura Portuguesa” 

Não vão atrás deste fado. O fado dos “grandes arquitectos portugueses” começa a ter ressonâncias de embuste do Estado Novo, no seu carácter trágico-épico, e interessa apenas e quase exclusivamente eles próprios. Não se promovam como “portuguese architects”; mas sim como “Lisbon-based” ou “Porto-based architecture office.” Na hora de assinar contractos, o “risco-país” de Portugal, o tal rating BB da S&P, assusta os clientes e as garantias bancárias —quando são exigidas—, têm custos explosivos. A ilusão de que ser publicado e dar conferências no estrangeiro, era quase o mesmo que construir, criou uma ficção de “internacionalidade” que agora cai por terra apesar de toda a laudatória. Por outro lado, há algo de extremamente paternalista nesta ideia da arquitectura ter uma proveniência nacional especifica. Não vejo vantagem ou sequer um sentido estratégico óbvio. 

Ambiente Anglo-saxónico vs. Ambiente bilingue 

Pela mesma razão, esqueçam sites e modelos de comunicação bilingues (EN/PT). Novamente o fado da portugalidade; quem quiser que o compre. O mundo dos serviços é por natureza anglo-saxónico; o verdadeiro Esperanto é hoje o inglês. Qualquer desvio dessa norma, gera desconforto no mundo dos serviços. Nesse mundo, o arquitecto é um “Consultant.” Lá em casa, na universidade ou nas revistas pode ser “autor”, “criador” ou aquilo que se quiser. Neste mundo, que inclui a Índia, a China, os países Árabes e partes substanciais de África, fala-se inglês e todas as outras línguas nacionais, incluindo o Mandarim, são “línguas locais.” 

Códigos de Comunicação 

Assumindo que já deixamos para trás a Portugalidade e todos os seus mitos, um Estudo Prévio passa então a ser um “Concept Design”, um Projecto Base é um “Design Development”, e o bom e velho Projecto de Execução é “Detail Design” ou “Construction Documents.” Quando acrescida das medições (Bill of Quantities) e do orçamento, o “Quantity Surveying” ou “QS”, passa a “Tender Documents.” Estas e tantas outras minudências, têm que ser apreendidas e agilizadas para vender serviços de projecto. De mesma forma a nossa proposta de honorários, passa a ser um “Consultancy Agreement”. O nosso seguro de projecto é um P.I.I. (Professional Indemnity Insurance). Os R.F.P. (Request for Proposal), R.F.Q. (Request for Quotation), os E.O.I. (Expression of Interest), os E.O.T (Extension of Time), os M.O.U. (Memorandum of Understanding), os Confidentiality Agreements, e tantas outras designações têm que fazer parte das rotinas dos ateliês. Os ingleses e os americanos, respectivamente através do RIBA e do AIA encarregaram-se de estabelecer as bitolas de todo este sistema. Um conselho: não percam tempo a aprender as outras. 

Especialização e Diversificação 

Há áreas de projecto que são universalmente reconhecidas como especializadas. Nomeadamente, hospitais, centros comerciais, estádios e aeroportos. Nalguns casos, os auditórios e grandes salas de espectáculos também entram nesta categoria, bem como a hotelaria especializada para cadeias internacionais (e.g. Four Seasons, Starwood, IHG, Hilton, etc). Nestas áreas os clientes aceitam pagar um prémio pelo know-how dos projectistas ou pelo menos raramente atribuem adjudicações a arquitectos que não o têm. Os jovens arquitectos deviam procurar formação neste tipo de áreas, particularmente na saúde e hospitais onde a procura vai ser crescente e cada vez mais exigente. Os ateliês devem procurar concentrar esforços para criar portfólios que permitam esta diversificação.

Ganhar Escala 

Um vão de escada muito grande, continua a ser um vão de escada. A “Arquitectura Portuguesa” vive obsessivamente o tema da autoria, como se o mundo parasse em êxtase a cada novo penico dos Guerras. Por isso é incapaz de criar algo que ultrapasse a micro-estrutura de 3 a 5 pessoas. Quando há trabalho, atinge 15 ou 20, mas continua com procedimentos empresariais de 5 pessoas. Porém, é economicamente inviável exportar os serviços de micro-empresas, por mais brilhantes que estas sejam. O que poderia parecer uma vantagem, pela sua eventual flexibilidade (“small is beautiful,” etc.), é afinal apenas pobre e miserabilista. A única hipótese de sobrevivência dos ateliês é fundirem-se e criarem empresas maiores e mais sólidas. Sem um mínimo de 30 ou 40 pessoas é impossível exportar serviços internacionalmente de uma forma consistente. 

ABC do Marketing 

A ideia de que o marketing do arquitecto são os seus próprios trabalhos, publicações e conferências passou à historia. Exigem-se agora níveis de agressividade e assertividade inteiramente diferentes, mesmo da parte dos grandes ateliês internacionais cheios de “sangue azul”. É necessário identificar os mercados e ir até eles repetidamente. Existe efectivamente necessidade de projecto no Camboja, no Vietname, na Tailândia, na Indonésia, na Arábia Saudita, no Qatar, na Rússia, nos Kasaquistões, nos Azerbaijões, nas Mongólias, em partes substanciais de África e em todo o Magreb. É necessário a montante fazer um trabalho de back-office a identificar oportunidades e potenciais clientes, marcar entrevistas com antecipação e fazer follow-up passado pouco tempo, para que não se caia no esquecimento. É necessário ir a feiras de imobiliário (escolher com muito cuidado para evitar barretes) com uma agenda organizada de apresentações, e também aí, fazer posteriormente um follow-up. Na maior parte dos casos, a relação com os futuros clientes leva meses/anos a consolidar-se e exige a presença in-situ de um sócio (partner) de forma recorrente, mês após mês, quinzena após quinzena. Nada disto tem glamour; nos dias que correm, tudo isto se passa com viagens em económica e hotéis de 3 estrelas. Aliás, no limite trata-se de um teste de resistência ou de um entediante jogo de paciência. Mas ainda assim, penso que este front-office de marketing é um trabalho que não pode ser feito por terceiros... não se pode encomendar a um “vendedor profissional” para que o faça por nós. A razão prende-se com o facto da maior parte das reuniões serem com os próprios directores das empresas e que normalmente esperam este primeiro encontro seja o prenúncio de uma relação directa com o arquitecto.

Streetwise 

A crise chegou a todo o lado, e a verdade é que, embora não seja tão dramática como em Portugal, existe internacionalmente um excesso de oferta de projectistas. Também por isso, não é só em Portugal que os promotores tentam que o trabalho “tentativo” ou “exploratório” seja por conta e risco dos arquitectos. Cabe ao próprio discernir até que ponto e em que medida quer investir nesse esforço de “marketing”. Aí é sempre preciso saber fazer muito com pouco, dar apenas meias soluções, esboçetos vagos mas atraentes; enfim, provocar a necessidade de gerar um contracto. É uma arte, acreditem. Mais do que nunca, os arquitectos são chamados avaliar a seriedade do (potencial) cliente que têm pela frente, mas desta feita sem o sistema local de relações pessoais ou profissionais que anteriormente lhe permitiria fazer essa triagem com relativa tranquilidade. Principalmente nos países em desenvolvimento, os “piratas” e “franco-atiradores” abundam. Junta-se a isto um universo de artimanhas de “decision-maker events” e “one-on-one business meetings” que jorram para dentro dos ateliês com promessas irrecusáveis a partir de call-centres em Bangalore e que sempre levam atrás os mais incautos. Toda a aldrabice é possível; recentemente recebi um telefonema de um Philippe de Rotschild a convidar-me para uma conferência privada com investment bankers suíços em Miami; dá para acreditar? 

Geografia e Destinos 

Não disparem para todo o lado e em todas as direcções. Os nossos recursos são muito escassos e o condicionamento geográfico é grande. Pessoalmente, e como já expliquei anteriormente, sou bastante céptico em relação aos “destinos naturais portugueses”. Acho que a proximidade da língua gera informalidade e a própria concorrência imposta pelos portugueses é suficiente para degradar as condições de comerciais. Por outro lado, tradicionalmente os mercados anglo-saxónicos sempre remunerarão melhor os serviços (foram eles que os inventaram...). Procurem fixar uma zona ou uma região, e tentem explora-la a fundo, e.g. saber quem são os players, quem poderão ser os parceiros locais, conhecer a economia e as empresas mais interessantes, os sistemas de licenciamento, etc. Uma vez identificado o destino, procurem manter uma presença forte e sistemática, voltando recorrentemente. A perseverança tende a ser recompensada. 

Comunicação do Ateliê 

A dimensão e recursos dos ateliês portugueses deve obrigar a um cuidado redobrado com a imagem. O site deve ser simples e de fácil comunicação (evitar Helvetica Light Very Thin corpo 3), e as imagens deve ter um tamanho razoável, mas não tão grande que crie bloqueios. Existe hoje um enorme escrutínio através da net, por isso o site deve estar a ser constantemente actualizado: é preferível não ter Facebook ou Twitter, mas ter um site actualizado, do que pulverizar os recursos de forma incompleta em muitas redes. O LinkedIn da empresa e de todos os colaboradores é obrigatório; antes de entrar numa reunião procuro sempre o perfil da pessoa com quem me vou reunir no LinkedIn —é razoável supor que os clientes façam o mesmo sobre nós. O grafismo, o nome, o logo e as designações acessórias, uma vez escolhidas e definidas, devem ser apenas evolutivamente adaptados, como a garrafa da Coca-Cola. Caso contrário gera uma esquizofrenia de identidade que os clientes não só não percebem, como nem sequer a retêm. O estacionário deve comunicar uma ideia de empresa e não de “incompreendido artista solitário”; deve ter todos os dados completos da empresa —os alemães até o número da conta bancária põem—, e as diferentes valências. O material de apresentação, principalmente o PowerPoint de apresentação da empresa, deve ser claro e eficaz na gestão das imagens e do tempo disponível. Numa apresentação, o primeiro bocejo (ou o olhar para o relógio) de não deve aparecer antes de volvidos 15 minutos (recomenda-se ensaiar antes). 

Comunicação do Projecto 

A actual “escola portuguesa” em termos de representação do projecto é decalcada da Suíça e serve apenas para publicação de projectos em revistas, ou para parecermos mais Suíços que os próprios Suíços nos concursos Suíços. Um cliente não especializado, ou simplesmente com um menor grau de sofisticação gráfica, fica imediatamente perdido com as plantas em linha .001mm e as inqualificáveis axonometrias explodidas. Cabe aos arquitectos facilitar este esforço de aproximação ao decisor, através da representação. Não é por acaso que, na hora de comunicar, as empresas americanas usam desenhos aguarelados, plantas humanizadas em treme-treme e outras manigâncias de enorme eficácia. Fazem-se brochuras de conceito, graficamente sofisticadas com imagens de referência criteriosamente seleccionadas (não, não é a escultura do Serra, a fotografia do Dan Graham ou a casa do Matta-Clark).

Ampliar a oferta 

Apesar de todas as suas fragilidades, a Arquitectura é uma área de mais fácil internacionalização que a Engenharia. Na angariação, a Arquitectura vai sempre à frente. Não vale por isso a pena voltar à ideia dos mega-consórcios de arquitectura/engenharia como as “profabris” dos anos 60-70. Porém, há 4 áreas complementares que os ateliês de arquitectura devem incorporar (e explicitar) na própria empresa com grandes vantagens estratégicas e comerciais. A saber: Master Planning (Urbanismo), Landscaping (Paisagismo), Interior Design (Interiores), Graphics (Grafismo). A ideia de caso-a-caso chamar um paisagista ou um designer gráfico “para integrar a equipa” a cada projecto, é algo de difícil gestão em termos internacionais. Podem-se acrescentar outras valências, por graça, e.g. Product Design (Desenho Industrial), mas já não são nucleares da actividade e podem acabar por parecer amadorísticas, se não houver um efectivo know-how associado. Uma nota sobre o Interior Design, que em Portugal os arquitectos sempre obstinadamente assumiram que sabiam melhor que ninguém, —porque até desenhavam mobiliário e escolhiam cadeiras do Arne Jacobsen, hoje já actualizadas para Hans Wegner. Relegado em Portugal para as decoradoras, o Interior Design ficou completamente à margem dos arquitectos. A verdade é que é uma área altamente especializada e que tem hoje os seus próprios heróis —raramente arquitectos. Mas admitindo que hoje a maior parte dos edifícios, —mesmo os de arquitectos famosos—, são entregues em core-and-shell (até museus...!) e que de seguida se convida um Interior Designer, não fará sentido criar essa valência internamente de forma desempoeirada, inteligente e profissional para oferecer aquilo que contratualmente se chamam “Full Design Services”? 

Não contém com ninguém 

Não esperem apoios de QREN, não contactem o delegado do AICEP local para vos dar pistas, não contactem a vossa embaixada, não percam tempo a fazer “teaming up” com as construtoras portuguesas, não se inscrevam em câmaras de comércio, nem tentem fazer protocolos com a universidade. Não esperem nada do governo, nem do país. E não se esqueçam que a Arquitectura vai sempre à frente. Que foi que disse o Padre António Vieira? “Se servistes a pátria que Vos foi ingrata, Vós fizestes o que devíeis, Ela o que costuma.”

“Inimigo” por Benedita Côrte-Real, 2012

O que é difícil é conseguir vencê-lo, ao inimigo1. 























Na tentativa de tecer considerações sobre os temas apresentados e tendo em conta a sua abrangência, resolvi, por entre os artigos aqui publicados, usar as palavras2 e ideias que se destacam3 e outras que me ocupam as entranhas (emigração, crise, filhos, velhice, nacionalismo, associativismo...). 
Nesta contagem, as atuais dificuldades que tolhem a capacidade de agir, são caracterizadas como: apatia e ausência; afastamento da realidade e conformismo; descontentamento; desespero; doença e tristeza. 
Tomei como “inimigo a abater” as palavras que se destacam: o arquiteto, o inimigo e a arquitetura. A perceção de que nós constituímos o nosso próprio inimigo e que temos dificuldade em delimitar o âmbito disciplinar é uma das ideias que se evidencia ao longo da leitura dos artigos. 
Outras questões recorrentes prendem-se com os concursos e a contratação pública, a legislação e o papel da Ordem. Dentro das palavras selecionadas e do tema do poder, a política é a mais questionada. Já no contexto da prática profissional destacam-se a ética, a obra e o projeto. No âmbito da teoria, são referidas as questões do arquiteto enquanto artista, da fuga à realidade e do sonho. No domínio económico: as questões da construção, da crise e do mercado. É evidenciada, ainda, a importância da cidadania. Embora seja mencionado o tema da internacionalização, não é referida a questão da emigração4
Defende-se que o Estágio é igual a exploração, mas não se refere a precaridade da maternidade na profissão5. Surpreendente, também, é a utilização única de palavras como associativismo, gestão, inovação, pro-atividade e solidariedade. 

1- Consciência de classe 
Se nós somos o nosso próprio inimigo, há que sair desta depressão: nem que seja para isso preciso implodir com a arquitetura ou com os seus pilares6
E, se nós somos o nosso próprio inimigo, e sendo o inimigo o que se nos opõem, de facto não existimos. O que demonstra a evidente inexistência de uma consciência de classe. Esta consciência de classe ultrapassa largamente as questões disciplinares.
Muito embora a “política de autores”7 possa constituir uma hipótese de trabalho, datada e, a ser, muito circunscrita (!), acredito mais que esta definição disciplinar se fará com base nessa consciência (que relativista não se pretende amorfa), na reconstituição duma classe que se valorize e respeite. Esta sensação de união permitirá que não caminhemos sós, e conduzir-nos-á convictamente pelos trilhos das tendências disciplinares.

2-Indivíduo vs nação
As tendências disciplinares a que me refiro não se enquadram necessariamente na prática que conhecemos porque essa, sim, está esgotada. Essas tendências surgirão com a resposta às necessidades (económicas, políticas, sociais e da própria classe...) e, como sabemos, a questão não está propriamente na resposta, mas na formulação da pergunta ou na criação duma necessidade, e será nessa neste processo que evidenciaremos a qualidade da nossa formação. 
Poderemos vender os nossos serviços quando descobrirmos o que temos de especial para dar. Quando cheguei de Maputo, perguntaram-me qual a minha opinião sobre o estado de sítio: temos que nos fechar, sobre nós próprios e sobre Portugal, estamos num momento em que se torna fundamental recriar e centralizar o nosso umbigo: refletir sobre as nossas imensas potencialidades enquanto indivíduos, arquitetos e enquanto nação – Marketing e para além de. Designadamente, no âmbito da exportação da Arquitetura, honrar a História poderá constituir uma oportunidade coesa de internacionalização.

3-Emigração
No contexto da exportação de indivíduos e enquanto emigrante que já não sou, devo dizer que felizmente o nosso Primeiro-ministro8 mandou emigrar, reduzindo (apesar de tudo) os concorrentes e a taxa de desemprego. Foi possível, também, perceber o desespero dum País que apenas viu como solução o incentivo à emigração desordenada9, num momento em que são reconhecidas internacionalmente as nossas qualidades técnicas. E, pior do que o subaproveitamento de recursos decorrentes de um investimento nacional, ignorou-se o impacto sobre os próprios emigrantes, no que se refere à sua fragilização enquanto indivíduos, sobretudo quando se encontram em situações precárias – questão particularmente sensível nas antigas colónias10.

Urge a nossa delineação enquanto indivíduos;
Urge o planeamento, um dia de cada vez – construindo objetivos futuros;
Urge a reconfiguração da classe;
Urge a organização, somos demasiados e queremo-nos demasiado abrangentes;
Urge a participação.


1 Escassez de rendimentos dentro do foro disciplinar ou fora dele
2 Escolhi uma série de palavras e contei o número de vezes que se repetiam (!)
3 Destacaram-se os contributos de Blaanc, Filipe Santos Marinho, Guida Marques e Maria Manuel, Maria Rita Pais, Paulo Costa, Tiago Lopes Dias, entre outros…
4 Para além do “Inimigo” por Cláudio Vilarinho, 2012
5 Ter filhos a recibos verdes é um duplo risco.
6 Ver “Inimigo” por Edgar Brito, 2012
7 Ver a entrevista a Nuno Portas na Revista Ler, Julho/Agosto 2012 
8 Enquanto porta-voz de uma estratégia. 
9 Como naturalmente o desespero encerra em si, uma perspetiva de curto prazo, não foi equacionado o impacto familiar (refiro-me ao acompanhamento da velhice) e tão pouco se considerou que com os emigrantes segue a nova e, já de si, reduzida geração de Portugueses e esperança no Futuro. 
10 Felizmente estão a ser dados passos importantes no apoio e informação à emigração.

“Inimigo” por Diogo Burnay, 2012

“Traz Outro Amigo Também” José Afonso (1970) 



Como nos transformamos nos nossos melhores inimigos? 
Quanto, quando e como bifurcaram o ensino e a aprendizagem, a profissão e a disciplina, o pensar e o sentir? 
Temos uma forte tradição de um ensino fortemente enraizado no imaginário da sua relação com a profissão: o ser arquitecto, ligado à prática do atelier, ao estirador, ao desenho, ao projecto e à obra. 
O que é possível ensinar e aprender numa escola de arquitectura? 
Como se processou a aprendizagem de arquitectura ao longo de vários séculos nos ateliers-escola? Todos estes paradigmas têm estado em constante revolução. 

A estigmatização dos modelos de relação entre mestre e estudante e a proliferação de geografias, culturas, modos de ensinar, fazer projecto, exercer a profissão em múltiplas e díspares realidades sociais, económicas, políticas e culturais, têm possibilitado não apenas uma maior abertura do campo como também uma leitura mais crítica sobre o modo como se estrutura o ensino e se potencia a aprendizagem. 

O contacto com a profissão e com a comunidade têm de estar fortemente presentes no modo como as escolas procuram reforçar a sua pertinência social e cultural tanto nos seus contextos mais próximos como nos hemisférios que aparentemente lhes são mais distantes. A relevância social e cultural do modelo de ensino e aprendizagem será mais intensificada quanto mais capacidade tiver de se relacionar simultaneamente com questões locais e globais. 

O modelo de Bologna trouxe mobilidade física. Implica flexibilidade de escolhas. Obriga a maior rigor nas opções e no modo como se celebra a chama da vocação e se explora os seus caminhos. O mestrado integrado, através dos dois ciclos, terá que num futuro próximo equacionar o modo como se transita do primeiro para o segundo ciclo. Esta transição, para permitir uma verdadeira mobilidade intelectual e pedagógica, terá de ser feita através de uma candidatura com um portfólio, uma carta de motivações com referência aos temas de interesse a explorar no projecto de tese. No Reino Unido a entrada para o segundo ciclo só é possível após um ano de trabalho num contexto profissional. 

A Escola de Arquitectura da Universidade de Dalhousie, em Halifax, na província de Nova Escócia, no Canadá, na outra margem do Atlântico, tem uma longa tradição não exclusivamente digital de “hands on”, através do desenho e da construção de maquetes, e de proximidade com a comunidade profissional e com as comunidades que lhe estão próximas. 

Na Escola, existe desde 1991 um programa de design and build (projecto e construção) onde professores e estudantes em 2 semanas trabalham em conjunto, projectam e constroem para responder a um desejo e necessidade uma comunidade. 
Estas construções são também uma oportunidade para a comunidade escolar, professores e estudantes, poder trabalhar com maior proximidade das comunidades, para as pessoas que iram usufruir e utilizar o que se está a construir. 
Os estágios profissionais estão igualmente integrados no curricula do curso de arquitectura. 
Os estudantes candidatam-se ao curso de arquitectura após terem estudado no mínimo 2 anos em outros cursos com outras matérias de múltiplas disciplinas. 
A sua candidatura tanto para o Bacharelato como para o Mestrado, é constituída pelo seu curriculum académico e as respectivas classificações e um portfólio dos trabalhos efectuados pelo(a) candidato(a). Num total de 3 anos (Bacharelato) + 2 anos (Mestrado), os, os estudantes têm um estágio profissional de 3 meses no final do primeiro ano do bacharelato na escola. No final do primeiro do Mestrado, os estudantes têm um estágio profissional de 7 meses. Após esse segundo estágio, regressam à Escola para iniciarem o curso de preparação para a Tese. 

O projecto de tese proporciona aos estudantes a possibilidade de estabelecerem uma posição que revele a sua relevância para a disciplina de arquitectura. Deste modo, estaremos a contribuir mais efetivamente para que haja uma forte renovação do papel social do arquitecto, para o presente, o passado e o futuro. Estes são saltos conceptuais e operativos que todos temos que repensar, equacionar e fazer para que novos modelos de ensino possam também questionar, responder e celebrar novas condições sociais, económicas, políticas e culturais. 

A arquitectura, o seu ensino e sua aprendizagem são parte integrante da nossa vida.